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55 ANOS DA MORTE DE MESTRE GICHIN FUNAKOSHI

Tekki shodan
Prezados companheiros de jornada no Caminho das Mãos do Vazio, osu!!!
Fazem, hoje, exatos 55 anos da morte do nosso grande mestre, fundador do estilo Shotokan, Gichin Funakoshi. Segundo o centro de pesquisa histórica da Prefeitura de Okinawa, mestre Funakoshi nasceu em Shuri (Okinawa) no ano de 1868, o mesmo da restauração Meiji (apesar de ter sido registrado só dois anos depois, como o próprio mestre conta em seus livros). Foi contemporâneo de outros grandes nomes do Karate de Okinawa, como: Kanryo Higaonna, Chomo Hanashiro, Choki Motobu e Kentsu Yabu.
Funakoshi sensei recebeu uma educação rica, que era dada apenas aos guerreiros de alta classe no período feudal (coisa que em seus tempos já havia começado a mudar), pois era neto dos professores de litratura e caligrafia da casa real de Okinawa. Esse fato, que lhe rendeu o saber da etiqueta e dos costumes japoneses também, foi decisivo para que ele fosse o escolhido para em 1921 apresentar o Karate no Japão Continental, frente ao Imperador Hirohito, na I Exibição Atlética nacional, e posteriormente ser o primeiro a registrar o Karate na Nihon Butokukai.
Funakoshi sensei acabou passando a maior parte de sua vida, após a exibição para o Imperador, atuando fortemente para divulgar o Karate no Japão, abrindo caminho para que muitos outros mestres de Okinawa expandissem seus estilos para o país e depois para o mundo. Sua história é repleta de situações de muito sacrifício pessoal em prol deste desenvolvimento do Karate, tendo morado em pequenas peças e trabalhado até mesmo como uma espécie de zelador e jardineiro de alguns desses espaços, para que pudesse seguir na sua missão de disseminar a arte oquinauense, mantendo-se longe inclusive da esposa e filhos por anos a fio para realizar esse feito.

Funakoshi sensei e sua amiga!
Se a história de Funakoshi sensei não está repleta de batalhas externas, como as histórias de Sokon Matsumura, ChokiMotobu, Masutatsu Oyama ou até mesmo Morihei Ueshiba (o fundador do Aikido), ela está plena da mais árdua força de vontade do Guerreiro Interior. Além dos citados sacrifícios pessoais, Gichin Funakoshi escreveu muitos livros, explicando a arte (entre eles: Rentan Goshin Karate Jutsu, Ryukyu Kempo: Karate, Karatedo Kyohan, Karatedo Nyumon, Karatedo: meu modo de vida e há ainda a compilação de seu Niju Kun em Os Vinte Princípios Fundamentais do Karate).
Talvez a principal contribuição de Gichin Funakoshi tenha sido a contribuição que deu ao ajudar com que o Karate absorvesse e se misturasse à cultura japonesa, podendo assim ser aceito fora de Okinawa, e também dando a essa prática uma senda espiritual a seguir. Ao alterar o nome da arte, sem mudar pra isso a pronuncia desse nome, deu-se uma virada que nos trouxe, através deste insight, uma nova trilha a seguir. Com a restauração Meiji e o advento tecnológico, as artes marciais em sua forma primeva não tinham mais o mesmo lugar, e o Karate (mãos chinesas/mãos da dinastia Tang), já não conseguiam alimentar o interesse da sociedade como um todo, ou justificar sua existência num novo modelo social. Aí que a entrada de uma compreensão de que o Karatedo (Caminho das Mãos do Vazio) poderia levar ao desenvolvimento do caráter e depois da espiritualidade de seus praticantes se tornou a forma padrão da maioria dos praticantes verem esta arte.
Gichin Funakoshi faleceu em 1957 e está enterrado em Kamakura, no Japão, no templo Enkakuji. Na sua lápide está gravada a frase “Karate ni sente nashi”, livremente traduzida como “não existe atitude agressiva no Karate”.

Memorial ao Mestre Funakoshi sensei , Kamakura - Japão
Deixamos aqui nossa homenagem ao saudoso homem, mestre de Karate, professor, pioneiro da expansão de seus sonhos, guerreiro interior, pai e marido Gichin Funakoshi, sem o qual não teríamos como vivenciar esta arte que hoje conhecemos como Karate Shotokan, nossa dívida consigo é incalculável. Também deixamos nosso respeito e admiração pelos mestres que também tiveram seus falecimentos lembrados a poucos dias: Masutatsu Oyama, aluno de Gogen Yamaguchi sensei e fundador do Kyokushinkai Karate, e Morihei Ueshiba O-Sensei, aluno de Sokaku Takeda sensei e fundador do Aikido.
Osu!!!
Tiago Oviedo Frosi
Porto Alegre, 26 de abril de 2012
KARATE E PSICOLOGIA – por Daniele Silva e Tiago Frosi

Embora com métodos diferentes, estes dois mapeamentos podem atuar juntos para propiciar crescimento e saúde às pessoas.
Na psicologia existem várias teorias que tentam definir e compreender o ser humano. Para a Psicologia Transpessoal, por exemplo, o ser humano é um ser bio-psico-social e espiritual, sendo que ao considerar a dimensão espiritual, esta psicologia diferencia-se de outras teorias psicológicas. Além de trazer para o cenário da psicologia a dimensão espiritual, a Psicologia Transpessoal também reforça o que autores como Wilhelm Reich, Alexander Lowen e Fritz Perls já haviam apontado: a importância do cuidado da dimensão física do Ser para que haja um verdadeiro crescimento pessoal e transpessoal. Isto porque a história pessoal (e porque não, a história da própria humanidade), está marcada, registrada no corpo, revelando-se na forma como andamos, nas nossas dores físicas, na forma como o corpo se posiciona perante as situações do dia-a-dia, etc.
Desta forma, a Transpessoal é uma psicologia voltada para a inteireza do Ser, afirmando que é necessário o desenvolvimento de todas as dimensões que constituem o humano, integrando-as. Na verdade, o ser humano é um ser inteiro, porém, como aponta a psicóloga Vera Saldanha e outros autores da Psicologia Transpessoal, ele encontra-se e percebe-se fragmentado, sem consciência da unidade, devido à ilusão da separatividade. As pessoas em geral referem-se “ao meu corpo”, ficando evidente a separação. Mas esta separação não existe, o corpo não é uma entidade separada daquilo que somos, pois nós somos o nosso corpo. Assim, à medida que se cuida do corpo, cuida-se também do psiquismo e do espírito; sendo o contrário também verdadeiro: quando se cuida da psiquê ou do espírito, também se está cuidando do corpo.
ARTES MARCIAIS, CAMINHO PARA A INTEGRAÇÃO
Neste processo de re-integração do Ser, Pierre Weil, saudoso psicólogo transpessoal, coloca que as artes marciais são uma ‘holopráxis’, ou seja, são práticas que possibilitam ao ser humano chegar à vivência do Todo, ajudando a reencontrar nossa inteireza essencial. Dentro desta visão, através das artes marciais é possível ao praticante experimentar e desenvolver a totalidade do seu Ser – seus níveis físico-psico-social e espiritual -, promovendo-se assim seu crescimento pessoal e transpessoal.
Coincidentemente ou não, já apontava Gichin Funakoshi, o pai do Karate moderno, esta arte marcial tem como objetivo o desenvolvimento integral do Ser, onde cada um precisa vencer a si mesmo, aqui e agora.
As artes marciais e em especial o Karate-Do, não são apenas técnicas de autodefesa ou de luta, elas têm objetivos que vão além desta simples definição. O Karate-Do, o “caminho das mãos do Vazio” busca desenvolver o caráter do praticante, de forma a levá-lo ao encontro com a Totalidade, expressa por Funakoshi através do conceito budista de Vazio. (Consideramos aqui, caráter como as características psicológicas que caracterizam a pessoa, incluindo-se também, a moral e a ética que a orienta). Neste sentido, além do Karate-Do ter como proposta propiciar um desenvolvimento moral e ético, devido à filosofia oriental na qual se fundamenta, ele também é uma ferramenta de auto-conhecimento, na medida em que é possível se conhecer mais através de sua prática, ajudando, desta forma, a se ter uma vida mais satisfatória e plena.
Entre os benefícios psicológicos proporcionados pelo Karate-Do estão o aperfeiçoamento da atenção, o desenvolvimento da concentração, da força de vontade, da disciplina, da coragem, da determinação, do equilíbrio emocional, do estado de presença, diminuição da ansiedade e da tensão, entre outros. Esta arte também procura desenvolver valores e permite que o praticante melhore suas relações pessoais, tendo assim um ganho na sua dimensão social (pois é praticado em geral em grupo), e também porque preza pelo respeito aos colegas, professores e adversários acima de tudo.
O Karate-Do é uma também uma ferramenta para que os praticantes reconheçam suas emoções diante de situações adversas e conheçam como estão lidando com cada uma destas emoções, além de possibilitar a aprendizagem de novas formas de expressá-las. Entre essas emoções estão a agressividade, o medo, a ansiedade e a impulsividade. Cada desafio, no treinamento, nos testes e nas competições, ajuda a reconhecer cada um destes aspectos e a aprender a administrá-los melhor, de forma mais equilibrada. O Karate-Do coloca o praticante em várias situações de exposição a partir do Kata (exercício formal de performance) e do Kumite (luta), e estas despertam sentimentos, pensamentos e fazem o corpo reagir de acordo com as aprendizagens que são trazidas pela pessoa. Estas aprendizagens se dão tanto a nível corporal e psíquico quanto espiritual, de acordo com seu desenvolvimento pessoal e com sua vida. Todo o Ser está presente no momento do Kata e do Kumite.
Nos dias atuais, onde a sociedade mostra-se demasiadamente cartesiana, separando corpo, mente e espírito, e cultuando o corpo somente em sua estética, o Karate-Do possibilita o resgate do corpo com outra significação. Além do desenvolvimento das inúmeras valências físicas fundamentais, como força, potência, capacidade cárdio respiratória, equilíbrio, resistência e potência anaeróbica, ritmo e ampliação dos reflexos, etc, o corpo é reconhecido e respeitado como caminho para o desenvolvimento físico e das demais dimensões do Ser, pois é visto com o olhar integral – corpo e espírito impossíveis de se separar, como Funakoshi e outros mestres orientais já apontavam. É uma nova forma também de respeito ao corpo, de cultuá-lo como Sagrado.
AÇÃO CONJUNTA, RESPOSTA INTEGRADA
Porém, para uma abordagem mais integral, é importante um olhar multiprofissional, com o Karate-Do e a Psicologia intervindo para a ampliação da consciência sobre si mesmo. Quando ambos trabalham em conjunto, características pessoais – que talvez passassem despercebidas na prática do Karate-Do ou da própria psicoterapia – podem ser trabalhadas, ajudando no crescimento do Ser, de forma a melhorar tanto a técnica do Karate-Do, quanto auxiliar o próprio desenvolvimento pessoal do praticante. Com a psicologia e o Karate-Do trabalha-se, então, de forma consciente e integrada o corpo, a psique, o social e o espiritual. Quando o corpo vivencia este processo de forma consciente, juntamente com as demais dimensões que somos, pode-se ter a re-integração do Ser.
Desde Reich, o percussor da psicoterapia corporal, sabe-se da importância do trabalho corporal para a liberação emocional e o desenvolvimento pessoal. Gichin Funakoshi já observava em suas colocações que não há verdadeira aprendizagem sem que a experiência passe pelo corpo. Segundo ele, a compreensão do significado e os ensinamentos da arte marcial não podem ocorrer somente a nível intelectual, o corpo precisa vivenciá-lo para entendê-los. De certa forma, a percepção de ambos, Reich e Funakoshi, é em essência a mesma, na medida em que colocam o corpo como fundamental para o desenvolvimento humano. No caso de não haver um trabalho em conjunto de Karate-Do e Psicologia, como em equipes de rendimento/competição esportiva, o Karate-Do pode ser recomendado pelo psicólogo como uma ferramenta complementar para a psicoterapia.
O trabalho integrado é importante porque também é necessária uma compreensão psicológica da pessoa. Com um profissional da psicologia trabalhando em contato com o professor de Karate-Do isto se torna mais fácil.
A compreensão das ideias filosóficas de origem oriental, como a busca pelo Vazio, o desapego, a expressão da complementaridade Yin-Yang através dos próprios movimentos, e tantas outras, podem ser facilitadas pela compreensão da dimensão interior do indivíduo através da psicoterapia. Neste caso, vemos que tanto o trabalho terapêutico realizado pelo psicólogo quanto o caminho de desenvolvimento ensinado pelo Sensei são beneficiados pelo diálogo destas duas tradições.
Daniele é psicóloga, formada pela PUCRS, e estudante de especialização em Psicologia Transpessoal.
Tiago é Professor de Karate, Bacharel em Educação Física pela UFRGS, e estudante de Mestrado em Ciências do Movimento Humano, também pela UFRGS.
*publicado originalmente no jornal Bem Estar, de Porto Alegre, edição de agosto de 2011.
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MÃOS DO VAZIO
Há um bom tempo haviam me indicado o blog de Andre Bertel-sensei, da Nova Zelândia, discípulo direto de Asai Tetsuhiko-sensei e pessoa influente na ISKF e JKS. Bertel é um karate-ka de altíssimo nível técnico. O blog é recheado de informações interessantes, mas principalmente é carregado com a visão do que é o Karate deste homem incrivelmente habilidoso. Apesar de admirar a maioria dos escritos, me incomodei bastante com a afirmação dele de que os kata Taikyōku são treinamentos inúteis, perda de tempo e devem ser deixados de lado. Escrevi o texto da coluna deste mês para me posicionar em oposição a essas ideias, com todo respeito ao nosso Bertel-sensei, com quem aprendemos muito.
Muitas pessoas explicam que o treinamento de Kata é um treinamento contra adversários imaginários, representando uma contenda em campo aberto, contra muitas pessoas, e que a partir desse tipo de treinamento já podemos aprender a essência da nossa arte (na verdade essa era uma das ideias centrais de mestre Gichin Funakoshi). Mas qual o real significado disso? Podemos aprender o real significado do Karate-Dō apenas com um simples Kata como Taikyōku.
Quando executamos o Taikyōku Shodan quantos inimigos visualizamos? Um à esquerda, outro à direita, dois à frente, mais um para cada lado, dois atrás, e mais dois para a direita e a esquerda… Dez adversários.
O treinamento do bunkai dos Taikyōku Kata nos ensina o ataque aos pontos vitais (atemi): sankaku, jinchu, shosho e bukkotsu (cabeça), danchu, kysen e suigetsu (centro do tronco), keikyo e gokoku (antebraço) e de kinteki (virilha). Além disso, ensina técnicas muito importantes como tsuki-uke e introduz toda compreensão básica da movimentação na Embuzen (linha de atuação) e do uso do Kime.
Mas há um ponto mais profundo, que pode e deve ser treinado desde os Taikyōku Kata. Qual a altura dos nossos golpes, ou melhor, dos nossos oponentes? A mesma que a nossa. Qual a razão? No Karate nosso verdadeiro inimigo somos nós mesmos.
Você precisa enxergar o mal dentro de si, e um a um atacar e vencê-los (a esses adversários internos que são nossas próprias sombras). Ao treinar o Kata você não enxerga com seus olhos, enxerga com seu Coração. Você não golpeia com suas mãos, golpeia com seu coração. Seu Coração ataca! O Céu e a Terra estão em seu Coração.
O estado de êxtase atingido pelo treinamento verdadeiro do Kata nos deixa sem palavras. É impossível expressar através da fala esta experiência. Este lugar de êxtase é o seu esvaziamento. O Vazio é o mundo que deu origem à sua vida. Nesse mundo não há amigos nem inimigos. É por isso que o conceito de inimigos ou de não ter inimigos reside unicamente em nosso Coração.
As Mãos do Vazio (空手) são as mãos daquele que nesta Terra não tem inimigos. Esse é o verdadeiro Karate. Eu levei muitos anos de treinamento solitário para compreender isso, mas você pode fazê-lo agora mesmo, neste momento. Tome todo mal do mundo e o transforme em bondade. Por favor, não me vejam como um mestre, vamos treinar juntos para alcançar esta meta. Esse é o Caminho daquele que entende o esvaziamento, o verdadeiro objetivo do Karate-Dō (空手道).
Tiago Oviedo Frosi
Shōtōkan Karate-Dō Shodan
Mestrando em Ciências do Movimento Humano – UFRGS
Porto Alegre, 6 de junho de 2011
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OBEDIÊNCIA CEGA AO SENSEI?
Conversando com muitos praticantes e professores, tenho observado um tipo de pensamento sobre como comportar-se em relação ao seu Sensei. Minha preocupação em relação a esse assunto é grande, pois estou vendo em muitos lugares uma espécie de ressurreição da relação hierárquica europeia da Era Medieval. Sim, não enxergo a figura do mestre oriental projetada nos professores de arte marcial aqui no Brasil, enxergo a figura do aristocrata europeu que usa seu “poder divino” para abusar dos “reles plebeus” (no caso, os alunos ou instrutores menos graduados).
Mais uma vez, gostaria de incentivar você, leitor, a conferir as ideias que embasam esta coluna na literatura, principalmente os livros “O Crisântemo e a Espada: padrões da cultura japonesa” da antropóloga Ruth Benedict e “Segredos dos Samurais: as artes marciais do Japão Feudal” dos historiadores Oscar Ratti e Adele Westbrook. Nossa reflexão precisa partir de ideias que realmente representam os ensinamentos da cultura da Ásia (especialmente do Japão) e se contrapor ao pensamento de senso comum propagado verbalmente dentro das academias e federações, ou não evoluiremos em nossa concepção a fim de desenvolvermos nossa arte.
Em primeiro lugar, gostaria de fazer uma colocação sobre a hierarquia e o On. Na cultura japonesa, a ideia de uma hierarquia rígida está muito presente e é a base organizacional de todo o sistema social desde o período feudal. Essa hierarquia coloca cada pessoa no seu “devido lugar” e é mantida por ideias sobre as dívidas morais (On) que se apresentam em cada um dos círculos sociais da vida. De forma generalizada, há uma dívida moral suprema em relação ao Imperador e dívidas morais (com diversas classificações que não abordaremos aqui) menores em relação aos pais, parentes, irmãos mais velhos, patrões e professores, e outros. Há uma ideia de aceitar uma dívida moral, o On, quando se recebe algo de alguma pessoa em cada um desses círculos sociais.
Nesse sentido, vai se tornando clara para nós aquela ideia de que “deveremos ao Sensei para sempre” como nos lembrou num curso interessante Pedro Oshiro-sensei (1) realizado em fevereiro aqui em Porto Alegre. E continuou o mestre: “O Sensei nos ensinou tudo, desde como vestir o karate-gi e fazer o primeiro gedan barai”. A cada dia de treino estamos acumulando um pouco de On a nosso Sensei, e de acordo com a filosofia tradicional do Japão, nunca somos capazes de devolver em igual medida a contribuição do Sensei para nossa vida (assim como não o conseguimos em relação aos nossos pais).
No Japão as pessoas evitam oferecer as gentilezas que o ocidental está acostumado a oferecer como parte de sua etiqueta, pois estaria constrangendo aquele que recebe a benfeitoria e obrigando-o a contrair On. No caso da prática da arte marcial, cada um de nós está contraindo On por iniciativa própria e aceitando esta dívida moral. Temos visto que a relação comercial (o fato de pagarmos mensalidades ao professor, dando uma contrapartida financeira pelo que é ensinado) tem dificultado a construção dessa relação de valores. Para nós, que conhecemos este princípio, temos de entender que mesmo assim, como o pensamento japonês afirma, “nunca seremos capazes de pagar uma dívida equivalente ao benefício que recebemos”.
Aqui me parece estar o cerne do nosso problema. Encontrei recentemente numa revista de psicologia um artigo que
afirmava que, após avaliações psicológicas, os praticantes brasileiros de artes marciais demonstravam uma subserviência incomum aos seus professores. Além deste comportamento opressor da parte dos “mestres”, que comecei a relatar aqui, há um comodismo por parte dos praticantes, dos alunos, por acharem que “isto faz parte da hierarquia das artes marciais japonesas”. NEGATIVO, PEQUENO GAFANHOTO!
A antropóloga Ruth Benedict é muito clara em sua análise num dos trechos centrais de “O Crisântemos e a Espada”, e nos esclarece esse ponto com a ideia de que os estudantes prestam total obediência e lealdade ao professor, estão honrando assim a dívida que contraíram do Sensei. Por sua vez, o professor age com muita cordialidade e centramento, honrando assim a dedicação de seus estudantes ou subordinados (no caso das empresas). E continua: “há uma exceção, quando o professor ou chefe age com rispidez ou violência, ou outro comportamento amoral que denigra a integridade (física, moral ou psicológica) de seus subordinados, estes estão livres de seu compromisso e, culturalmente, autorizados à vingança para honrar a dívida que tem com o próprio nome”. Ou seja, os estudantes aceitam contrair On com o professor, e lhe devem obediência e devem esforçar-se nos treinamentos para honrar o conhecimento que estão recebendo do Sensei. Esta obediência, porém, dura até serem maltratados pelo professor. Na cultura japonesa a dívida com o próprio nome (que envolve a ideia de honra à família e aos ancestrais) é uma das mais pesadas que recai sobre um indivíduo e impulsionou inúmeros artistas marciais, desde o período feudal, a buscarem vingar-se de seus mestres.
Obviamente nossa realidade não é a mesma do Japão, mas devemos estar atentos e ter amor próprio. A atitude descortês de muitos professores não é apropriada a um professor de Karate-do, é preciso haver um equilíbrio entre autoridade e cortesia constantes. Muitas vezes confundimos a atitude de homens que acham que o Dojo é uma extensão de suas experiências no exército ou assistindo a filmes de guerreiros espartanos ou da idade média com o comportamento adequado ao “Guerreiro Samurai”.
Karate-do deve ser alicerçado em respeito, e ele começa, sem sombra de dúvida, no exemplo dado pelo Sensei o tempo todo, respeito é algo que precisa transparecer, emanar das atitudes do professor. Fique alerta, o caráter, que está gravado no Dojo Kun, é um elemento básico que não deve estar só num quadro da parede, deve estar nas pessoas. Observe seu professor e seus colegas e faça uma avaliação. Como nos lembra a antropóloga americana Angeles Arrien, o Guerreiro é aquele cujas atitudes estão o tempo todo alinhadas com as palavras e valores. Se o quadro e o discurso de seu Sensei dizem uma coisa e as atitudes dele outra, considere procurar um Dojo de Karate-do de verdade…
Osu!!!
Tiago Oviedo Frosi
Shotokan-ryu Karatedo Shodan (CBK/WKF)
Estudante de Mestrado em Ciências do Movimento Humano – UFRGS
Porto Alegre, 08 de maio de 2011
(1) Pedro Oshiro-sensei é 7º Dan do estilo Goju-ryu e presidente da Federação Paulista de Karate (FPK/CBK) e ministrou um curso aberto de Goju-ryu em Porto Alegre, na ACM, em fevereiro.
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NOSSOS COLUNISTAS!
Como prometi, o blog irá trazer bem mais materiais para vocês,só que pelo fator tempo, precisarei da ajuda de colaboradores. E inaugurando nossa nova área, temos Tiago Frosi sensei, que apartir de hoje será um de nossos colunistas, xpondo suas opiniões e somando ainda mais para o nosso espaço.
Fiquem ligados no nosso novo espaço que poderá ser acessado no menu COLUNISTAS. Oss!
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Ser Samurai hoje!
Porto Alegre, 19 de fevereiro de 2011
Venho ouvindo pessoas de várias artes marciais japonesas falando uma mesma frase em discursos emocionados sobre o “espírito do budô japonês”: Somos Samurais!!! E olha, isso não é exclusividade do Karate; pessoas do Judô, do Jiu-jitsu e claro, do Kendo, já falaram esse tipo de coisa na minha frente. Também já ouvi o contrário, certos praticantes de artes marciais indignados reclamando o oposto: “que papo é esse de samurai coisa nenhuma!”. Justo.
Resolvi escrever hoje, nesta primeira postagem para a coluna do Pinto Karate Dojo, sobre este tema: o que é ser Samurai hoje? É possível? Vamos ver…
Historicamente, o que é um Samurai? Bom, vou dar minha própria opinião, mas gostaria de sugerir alguns livros para os interessados que ajudaram a formular meu argumento: 1º Hagakure: o livro do samurai de Yamamoto Tsunetomo. Este é fundamental para entender o pensamento dos guerreiros do Japão no período Tokugawa, é imperdível. 2º Segredos dos Samurais: as artes marciais do Japão Feudal, de Oscar Ratti e Adele Westbrook, professores de História em universidades dos Estados Unidos e praticantes de Aikido, talvez o mais completo com informações que saciam qualquer mente ocidental. 3º O Crisântemo e a Espada, da famosíssima antropóloga Ruth Benedict, que estudou todo o modo de vida japonês durante o período da Segunda Guerra Mundial para dar subsídios aos americanos na luta contra o país do sol nascente. E, também, em 4º Energia Mental e Física de Jigoro Kano, o fundador do Judô, que fala em alguns momentos sobre como a cultura tradicional do samurai foi exportada para o Judô (e para o “budô moderno”), e assim nos ajudando a entender como tudo isso chegou para nós nos dias de hoje.
Quero, antes de tudo, sugerir que dissipemos uma confusão muito importante: há uma diferença entre Bushi e Samurai. Bushi era a denominação para guerreiro, alguém que pertencia à casta chamada Buke no Japão Feudal, e além desta casta haviam outras, que eram os aristocratas e a realeza (Kuge), os camponeses (Heimin), além dos artesãos e comerciantes (Shokunin), do clero e dos párias. Os Bushi (guerreiros) eram a casta que detinha o poder no período feudal, eles eram essas figuras que estamos acostumados a ver com armaduras, espadas japonesas e lanças sobre cavalos nos filmes, seriados, fotos, etc. Mas se isso é um Bushi, o que é um Samurai?
Samurai é uma palavra japonesa que significa “aquele que serve”. Tem origem noutra palavra do nihongo (idioma japonês) arcaico: hirazamourai. Os Bushi do período feudal tinham seus deveres e direitos, todos os japoneses viviam numa sociedade muito restritiva, cheia de regras, onde cada um estava “no seu devido lugar”, e o lugar dos Bushi era superior ao das outras castas em termos de poder e hierarquia (pois os camponeses, artesãos e párias lhes deviam respeito, estavam abaixo na hierarquia; e os aristocratas estavam confinados em Kyoto exercendo um poder figurativo). Porém, esta disciplina extremamente rígida e incompreensível para nós ocidentais gerava certos efeitos no pensamento e no comportamento daquelas pessoas. Havia um impulso por obediência e lealdade para com o generalíssimo, o Shogum, e para com os senhores feudais, os Daimyo. Podemos dizer que havia um sentimento de sacrifício a muitos desejos e possibilidades de se ser outras coisas além de ser guerreiro, mas o guerreiro era essencial para que a sociedade fosse segura e previsível, para que todos na sociedade se sentissem seguros, com as rédeas do destino nas mãos. Esse era o grande ideal da sociedade japonesa, ter o controle sobre o que acontecia, garantindo o futuro. Para isso, o Bushi se transformou em alguém a serviço, não apenas do seu senhor ou do generalíssimo, mas também do ideal de vida japonês, de um futuro seguro e previsível e da ideia de uma hierarquia onde cada um tinha “o seu devido lugar”. O Bushi, interiormente se tornou um Samurai.
Por fim, a partir de 1868 aconteceu a restauração Meiji e o país se transformou. O Japão adotou inúmeras instituições baseadas em modelos ocidentais e, entre outras coisas, as castas foram dissolvidas e o poder passou do Shogum de volta para o Imperador (sob forte influência dos mercadores e guerreiros de classe média que unidos tornaram-se industriais e modelaram a maioria do novo regime). Assim, os Bushi desapareceram, a classe guerreira feudal foi extinta. E o “espírito Samurai”?
Vivemos em uma sociedade diferente, em outro país, com uma cultura totalmente diversa, quase antagônica à japonesa. Mesmo assim vemos muitos praticantes de artes marciais auto proclamarem-se Samurais. Pense no resgate histórico que fizemos: Bushi e Samurai não são a mesma coisa. Com isto, finalizo esta passagem com a seguinte ideia: cuidado! Ninguém pode ser um Bushi hoje em dia, nem mesmo um japonês! Muitas pessoas por aí estão se proclamando “Samurais” e com isso revelando que mantém em suas mentes a ideia de que ao acrescentarem essa palavra a seus “nomes de guerra” estão dizendo que são tão poderosos ou bons lutadores quanto os míticos guerreiros japoneses da antiguidade, famosos por suas habilidades com ou sem armas. Querem ser Musashi ou Oyama, ou pior ainda, querem ser Mike Tyson de quimono. Agora, ser um Samurai de verdade, adotar este espírito como um caminho de vida não me parece inadequado. Pelo contrário, pense: ser uma pessoa que está a serviço, doando seus talentos à sua comunidade, agindo com ética, com disciplina, sabendo ouvir e ser ouvido, é o que nosso mundo precisa, desde que sejamos Samurais que transcendam a imagem antiga. Esqueça a ideia do homem brigão, machão e que tem que provar pra todos que é forte. Violência e rispidez só afastam as outras pessoas e, como vimos, não tem nada a ver com o significado da palavra Samurai. Transcender a ideia antiga é, além de estar a serviço, ser criativo e benevolente, contribuir com a evolução.
Se você quiser ser um Samurai, estar a serviço dos outros através da caridade e da vida correta, vá em frente. Mas não fique falando por aí que você é um samurai se só sabe arrumar confusão com as pessoas na rua, isso é desonroso. E vai que você encontre um Samurai de verdade com um bom Karate na próxima provocação…
Osu!!!
Tiago Oviedo Frosi
Shotokan-ryu Karatedo Shodan (CBK/WKF)
Estudante de Mestrado em Ciências do Movimento Humano – UFRGS









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